Por que não mudar o mundo?

“Eu sempre me interessei por ciência, tecnologia e (acima de tudo) computadores. Essas são coisas que eu sempre amei, apesar de serem difíceis as vezes. Eu amei matemática e ciências na escola. Eu li histórias de ficção ciêntifica e aventuras fantasiosas durante todo tempo livre que eu tinha. Eu fui o garoto nerd da escola que sofria bullying e era zoado. Teria sido bem mais fácil desistir do meu jeito e ser ‘como qualquer outro’. Eu poderia ter parado de ler. Eu poderia ter praticado mais esportes.

Mas eu não fiz isso. Eu sabia o que eu amava. Eu sabia que o que eu queria era mais importante do que o que eles queriam. Acima de tudo, eu queria mudar o mundo.

Ninguém na história já mudou o mundo sendo o que os outros queriam que fosse. Eles mudaram o mundo pela ousadia de rir do que é senso comum e tentar algo novo. Eles mudaram o mundo ao se manterem de pé e desafiando que “contra a força não há resistência” ou “ser maria vai com as outras” é o caminho certo.

Este é o sentimento que me dirigiu a minha carreira Open Source*. Eu escolhi este caminho em minha vida porque eu vi este como uma forma de fazer alguma diferença real no mundo. Esta foi uma mudança real em minha vida, e continua sendo. E isso vai de encontro a toda a cultura e história dos negócios corporativos.

No seu coração, o movimento Open Source é uma extensão da ciência. O senhor Isaac Newton escreveu: ‘Se vi mais longe foi por estar de pé sobre ombros de gigantes.’. Uma das mais brilhantes mentes da história reconheceu que sua contribuição para a nossa maior compreensão não veio somente de sua mente ou visão, mas sim do fato de que milhares de mentes, maiores e menores, trabalharam juntas para criar um mundo onde sua faísca em particular pudesse inflamar a mudança.

A filosofia do Open Source é a mesma. É um mecanismo para permitir que milhares de pessoas trabalhem juntas por um objetivo comum. O desenvolvimento clássico de software sempre ocorreu em ambientes fechados que sempre protegeram seus segredos a punhos de aço. Essencialmente, este pensamento (fechado) também se refletiu em invenções e na indústria por anos (e ainda reflete). É um hábito difícil de quebrar, especialmente quando parece que você está abrindo mão de algo.

Na minha opinião, este é o ponto central que faz com que as pessoas tem problemas em aprender. Quando você abre mão do controle exclusivo, você está ganhando algo muito mais valioso: você está expandindo o nível base. Você está alimentando esses gigantes para que você, e outros, possam ficar de pé sobre e ver mais além. Onde antes você era um inventor de pé sobre os ombros de um gigante, agora você olha para baixo e pode ver a verdade que isso significa: que este gigante está de pé sobre outros gigantes maiores. E por ai vai, por toda a história.

Uma vez que você se envolve, as coisas começam a ficar mais claras. Quando você ficar mais alto e puder ver mais além, você perceberá que os seus esforços podem ter o impacto maior do que um dia você jamais imaginou. Ao invés de deter um conhecimento irrisório, você pode compartilha-lo com o mundo e ver o que eles irão fazer com este conhecimento também. Isso nem sempre será o bastante e nem sempre irá atender aos seus objetivos originais, mas isso será sempre melhor do que a soma de suas partes. E, de uma forma pequena, você terá mudado o mundo.

Uma coisa que fica bastante esquecida quando as pessoas falam sobre mudar o mundo é que eles falam sobre deslocamentos massivos de direção. Eles falam sobre esses momentos na história em que você pode olhar pra trás e dizer: “Aqui! Foi neste momento que tudo mudou!”. Esses momentos sempre haverão a cada poucos séculos, mas a verdade é que a maioria das mudanças acontece de forma glacial.

Open source é uma dessas mudanças glaciais. Eu não uso este termo para sugerir que esta mudança acontece muito devagar. Pelo contrário, eu escolho este termo para invocar a imensidão, inevitabilidade e o quão incrível é o abalo a que isso leva. Uma geleira pode levar décadas, séculos ou mesmo milênios para se mover pela terra, mas nada pode realmente se manter contra sua maré. Este é o legado do Open Source: a maré do progresso.

Ao longo dos últimos 25 anos de Linux, temos visto um grande número de avanços feitos na marcha do progresso. Quando as pessoas perguntam com o que eu trabalho e eu digo ‘Linux’ ou ‘Open Source’, elas frequentemente me devolvem um olhar vazio. Eu normalmente sigo com a seguinte sequência: ‘Você tem algum dispositivo com um interruptor que não começa com a letra I? É provável que ele esteja rodando Linux ou, ao menos, algum código Open Source’. Toda vez eu digo isso, e me surpreendo com a grandiosidade disso. Todos esses anos de trabalho duro, de tantos indivíduos talentosos, mudou as coisas a tal ponto que agora código open source é padrão, eles estão em todo lugar, é o protagonista ao invés do coadjuvante. Além disso, se tornou tão onipresente, que qualquer um pode usa-los sem sequer saber de sua existência.

De uma maneira bem real, a comunidade Open Source mudou o mundo. E continua mudando dia após dia. Eu comecei a fazer parte disso, e eu não vou mentir que a idéia não me deixa um pouco atordoado.

Eu comecei este blog (https://sgallagh.wordpress.com) com a questão ‘Por que não mudar o mundo?’, mas este foi um pequeno mal entendido. Nós já mudamos o mundo. A questão real deveria ser ‘Como você vai muda-lo depois?’.”

Este texto representa bastante do meu sentimento e carinho pela comunidade Open Source. O post original pode ser encontrado em: https://sgallagh.wordpress.com/2013/08/26/why-not-change-the-world/